Um escritor com horas (in)certas
Parte 2
Santarém, um lugar de
influência
Os aplausos que se ouvem, agora,
na Livraria Ferin devolvem o sorriso habitual e tranquilizante a Samuel
e fazem-no recuar 13 anos no tempo, ao dia em que leu pela primeira vez um
conto à família. "Lembro-me de terminar o conto, as minhas avós e a minha
mãe estavam em casa, eu subi para cima do sofá e comecei-lhes a ler. Elas
ficaram estupefactas por um miúdo de dez anos estar a escrever um conto,
gostaram e aplaudiram”, relembrou.
Ao primeiro conto chamou A
Casa Assombrada, um conto de duas páginas. Foi a primeira vez que escreveu
consciente de que queria ser escritor e com o intuito de publicar. A história
nunca saiu das quatro paredes de casa, e Samuel até já lhe perdeu o rasto, mas A
Casa Assombrada marcou o início de um caminho na literatura.
Seguiram-se mais contos, todos
num registo fantasmagórico. A vila de Alcanhões, na qual Samuel cresceu e na
qual adorava brincar, à noite ganhava vida pelas personagens construídas no
imaginário do escritor. “Atrás da minha casa tinha um riacho e isto fez com que
eu fosse muito ligado à natureza. Acredito que as pessoas que são ligadas à
natureza vêem a realidade de uma outra forma. Eu sempre olhei a realidade de
uma forma mágica. Sempre me questionei como nascem as árvores, o que passa por
baixo do riacho. Como fui um miúdo muito fantasioso comecei a escrever neste
registo, com fantasmas e bruxas”.
Com um olhar contemplador,
invulgar numa criança, e com ideias críticas sobre o mundo que o rodeava, desde
cedo Samuel mostrou ser peculiar: aos 10 anos começou a escrever, aos 13
apaixonou-se pela poesia, aos 14 começou a criar textos para teatro. A certa
altura, a escrita passou a ser um refúgio e a brincadeira favorita do, então,
promissor escritor.
“Tive uma adolescência pouco
comum, a escrita foi o meu refúgio. Sempre gostei de viajar, ouvir música.
Gostava de brincar, mas a partir de uma certa altura brincava sozinho com as
minhas personagens”
No quarto, o pequeno escrevia,
escrevia, escrevia e escrevia, ora contos, ora prosa, ora poesia, e
especialmente à noite, “porque havia menos probabilidades de ser incomodado” e
se há coisa que Samuel detesta é ter que se cruzar com pessoas enquanto
escreve. Hoje em dia já não é assim, as obrigações profissionais mudaram-lhe os
hábitos.
“Trabalho em
comunicação, numa fundação, a Fundação S. João de Deus e acordo todos os
dias às 7:20 da manhã, não posso fazer grandes noitadas senão de manhã não
acordo.”
Samuel
escreve quando tem tempo e quando não lhe apetece nem sequer pega na caneta. “
Não me obrigo a nada, não gosto de regras, talvez às vezes crie regras para
depois as quebrar”, remata com risos.





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