sábado, 21 de setembro de 2013

Álvaro Cordeiro: “O autor diz-se no que escreve, os leitores leem-se no que ele escreveu”

20 de Junho de 2013. Data oficial do lançamento do livro Nós, Vida, primeiro do autor Álvaro Cordeiro, primeiro da editoraLivros de Ontem. Uma dupla estreia que encheu a livraria Pó dos Livros e que deixou no ar a promessa de um grande sucesso literário.Agora que a obra já circula e repousa na prateleira das livrarias esperando o interesse dos leitores, o autor revela-se e explica-se.
O EF esteve à conversa com o autor e tentou encontrar resposta para algumas perguntas: Quem será Álvaro Cordeiro? De que fala Nós, Vida? O que dizem as entrelinhas deste autor que se estreia no mundo da publicação literária?
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O Paulo é um novo autor mas só como autor publicado. A escrita, em si, já não é novidade. Quando começou esta apetência pela palavra?
Eu escrevo desde a adolescência. E penso que tudo começou por efeito natural da minha timidez. Nunca me considerei muito dotado para a oralidade, inibo-me ao falar para outras pessoas e, por isso, desenvolvi a escrita como território privilegiado da minha expressão e comunicação. Isto depois foi potenciado pelo contacto, que vem desde a infância, com a literatura: sempre me fascinou a capacidade dos escritores usarem as palavras na sua máxima riqueza e, com elas, dizerem coisas que nós não conseguimos dizer, usando as mesmas palavras nas nossas conversas.
Primeiro para a gaveta e depois para o teatro. Como foi esse processo e como foram tomadas essas decisões? Por que não a publicação?
Sempre escrevi “para a gaveta”, desde que me lembro. E continuo a fazê-lo. Considero esse exercício importantíssimo para progredir na qualidade de escrita. Acredito que é preciso repetir páginas e páginas até chegar a algo que valha a pena ser lido por outros. A escrita teatral, de forma mais séria, surgiu mais tarde, há quase vinte anos, quando formei um grupo de teatro amador que queria encenar textos originais. Produzíamos uma peça por ano e, por cada texto que “saía”, vários rascunhos iam para a gaveta para que deles pudessem resultar outros textos mais tarde. É sempre este o processo: escrever a partir do que já se escreveu e tentar ir mais além a cada novo passo. Quanto a publicação, confesso que nunca pensei nisso: o prazer da escrita (algo romântico, reconheço…) esgotou-se sempre na contemplação da própria escrita e, no caso do teatro, na fruição do espetáculo que dela surgia. Até agora…
Chama-se Paulo Vaz, publica como Álvaro Cordeiro. Como surge o pseudónimo? É uma vontade ou uma necessidade?
Paulo Vaz sou eu, um homem comum, igual a tantos outros: exerço uma profissão, sou marido e pai; dedico-me ao estudo e ensino da História, valorizo a espiritualidade, gosto perdidamente de ler e tenho uma enorme paixão pelo teatro. Nada mais que isto. Álvaro Cordeiro não é um pseudónimo, é uma personalidade literária que habita esta pessoa comum e, dentro dela, exprime-se por escrito. Eu publico como Álvaro Cordeiro porque escrevo como Álvaro Cordeiro. Sempre escrevi como Álvaro Cordeiro, mesmo para as gavetas, desde a adolescência. Quando, no teatro, pego numa peça escrita por Álvaro Cordeiro para a encenar, encaro-a como algo escrito por outra pessoa. O mesmo sucede (e sucedeu desde o início) com o Nós, Vida: releio aqueles capítulos e admiro o facto de alguém ter conseguido escrevê-los… Isto pode parecer estranho, ou até presunçoso ou pedante, mas não é: é assim que o sinto, convivo com isto de uma forma simples e despreocupada e não costumo falar no assunto.
O que tem de novo para dizer ao mundo? Ou de diferente?
Depois de ler os grandes clássicos da literatura, fica-se com a sensação de que já não há nada de novo para dizer ao mundo. O ser humano diz-se a si próprio naquilo que os escritores escrevem, as suas palavras dizem uma outra Palavra maior que há neles, ou que através deles se transmite. E, assim, o ser humano recria-se e acrescenta-se e é por isso que a literatura é importante. E é por isso que continuamos a escrever, porque tentamos inventar maneiras diferentes de dizer o essencial que, se calhar, já foi dito mas vale a pena continuar a dizer. E o essencial é sempre o ser humano, com todo o seu potencial de energia, sentimentos, inteligência e espiritualidade. Sempre houve e haverá homens e mulheres que vivem a vida inteira sem reconhecerem em si potencial algum, ou sem terem oportunidade de ativar o que quer que seja. Como se explica este fenómeno? É o mistério de uma humanidade que foi capaz de gerar um Aristóteles, um Francisco de Assis, mas também um Rodrigo Bórgia ou um Estaline e tantos milhões e milhões de pessoas que nunca saberemos que qualidades e defeitos tinham. E é este mistério que é preciso continuar a dizer na literatura. Isto é o que eu penso e é sobre isto que escrevo. Às vezes sinto que a escrita de Álvaro Cordeiro transcende tudo isto que eu penso e sinto, ou vai buscar o que há de mais profundo em mim e exprime-o de uma maneira que eu não sei muito bem explicar como acontece. Como se as palavras escritas revelassem essa outra Palavra que é maior do que aquele que as escreve (a tal “verdade profunda ou terrível ou absurda ou final” de que fala a nota inicial de Nós, Vida). Escrever, no fim de contas, é um ato de transcendência. Gosto de pensar que talvez seja isso que tenho a dizer: o ser humano está, em tudo o que faz e vive, desafiado a transcender-se.
Decide avançar para a publicação numa altura de crise em que a cultura se ressente. Um desafio ou uma adversidade insuperável?
É verdade que vivemos uma conjuntura de crise económica grave, as pessoas temem pela sobrevivência e pelo acesso aos bens essenciais. Os equilíbrios sociais estão abalados, porque as pessoas sentem que já não podem viver segundo os padrões em que viviam e reagem pela depressão ou pela agressividade. E, na redução ao essencial, é claro que a cultura está entre os primeiros cortes, de acordo com a sociedade materialista e utilitarista em que vivemos. É inevitável, embora talvez não devesse ser assim, porque a História ensina-nos que as grandes ideias geradoras de mudança surgiram ou afirmaram-se precisamente em períodos de crise e a cultura é simultaneamente viveiro e canal de transmissão de ideias. Na Islândia, por exemplo, o Estado apostou num relançamento da produção cultural como uma das formas de combater a crise. Isto pode ser um sinal de que a cultura tem lugar num contexto de crise, porque devolve os indivíduos e a sociedade à reflexão sobre si próprios, desperta-lhes o potencial criativo, constrói ou reconstrói imagens e acorda para o essencial. Neste sentido, avançar para a publicação numa altura de crise é, sem dúvida, um desafio.
Como é ser um novo autor em Portugal? Que oportunidades e dificuldades existem?
Se considerarmos como autor aquilo que eu sempre fui (alguém que se entrega simplesmente ao ato criativo da escrita), direi que há muitas oportunidades para um novo autor: com computador e internet é possível escrever a qualquer hora e em qualquer lugar, armazenar a escrita em “gavetas virtuais” e partilhá-la de modo mais seletivo ou mais aberto, na modalidade que se quiser, através de nuvens, blogues, redes sociais, edições on-line, etc.. Se entendermos por autor alguém que publica ou deseja publicar a sua escrita e viver disso, adivinham-se mais dificuldades: talvez não seja muito difícil editar um livro e pô-lo à venda, mas para ter “êxito” é preciso criar nome e ir ao encontro dos critérios de aceitação do público (o que é bom, desde que se tenha qualidade e isso fomente mais leitura e reflexão). Ou então produzir um forte impacto de novidade com uma proposta alternativa que venha a definir um novo critério de aceitação. Em síntese, penso que há muitas oportunidades para escrever e razoáveis possibilidades de publicar, mas será difícil conquistar um espaço significativo no ambiente de massificação cultural que caracteriza a sociedade atual.
Na sua opinião, como está o panorama editorial português a nível de autores, editoras, livrarias, novos formatos?
Sinceramente, não sei responder a essa pergunta, que é demasiado abrangente. Cultivo o prazer da leitura e da escrita, mas domino pouco o panorama editorial. É um lugar comum dizer que as grandes editoras apostam nos formatos de sucesso e nos autores consagrados e descuram as propostas alternativas e os autores com universos mais particulares. Porém, eu não sei se isso não acaba por ser natural: é uma lógica de sobrevivência empresarial que, no fundo, pode prestar um serviço à difusão cultural. O mesmo se passa, porventura, com as livrarias: enchem uma montra com exemplares do mais recente sucesso mundial para que as pessoas, ao passarem, verifiquem que é uma livraria atualizada. Então, as pessoas entram para ver se há lá dentro outras coisas interessantes … e talvez reparem num dos três exemplares do Nós, Vida que foram ali postos à venda na quarta prateleira. O importante, penso eu, é que essas pessoas admitam que um livro desconhecido de um autor desconhecido pode ser interessante, que se disponham a colher informação sobre ele, que arrisquem comprá-lo e lê-lo e, acima de tudo, que formem uma opinião própria sobre o que leram, em vez de se limitarem a comprar o último best-seller estrangeiro acreditando que deve ser muito bom porque já vendeu cinquenta mil exemplares. As editoras e as livrarias são empresas que alimentam um público do qual dependem para se manter. Às vezes, os autores funcionam da mesma maneira. É, quanto a mim, a atitude do público leitor que tem de ser aberta e pluralista, fugir da simples repetição massificada, cultivar o gosto pelo diferente e valorizar universos literários variados sem precisar de fazer comparações, apreciar tanto um best-sellerinternacional como um livro de culto em edição de autor. Para conseguir chegar aí, penso que todos – autores, editoras, livrarias e, claro, leitores – temos de nos dispor a arriscar um pouco mais.
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Como define Nós, Vida?
Gostaria de deixar para os leitores a resposta a essa questão. Afinal de contas, é esse o jogo da literatura, não é? O autor escreve, os leitores apreciam a escrita. O autor diz-se no que escreve – e às vezes diz-se mais do que se conhece –, os leitores leem-se no que ele escreveu – e às vezes leem-se mais do que se imaginavam. E, a partir daí, dizem-se a si próprios de outra maneira e talvez até passem a dizer-se aos outros de maneira diferente. Por isso é que a literatura é um ato de transcendência e pode ser uma experiência transformadora. Como a arte. Nós, Vida é, sem dúvida, a forma mais acabada que até hoje consegui de me dizer, ou de dizer a Palavra que procuro em mim. Creio que ainda é uma forma incompleta, por isso é que continuo a escrever.
O que mais me chamou a atenção em Nós, Vida foi a interligação do título com a história, duas palavras singulares que formam um todo que faz muito sentido ao longo da história. Como foi o processo de construir uma narrativa tão real, tão certa com o mundo que nos rodeia?
De início não havia sequer a preocupação de construir uma narrativa sequenciada. A ideia era compor um retrato do ser humano fragmentado em cenas diversificadas com personagens diferentes que não tinham ligação entre si. Ao longo do processo de evolução da obra, as personagens foram-se tornando próximas, surgiram os laços familiares e afetivos, ataram-se os nós daquelas vidas. Como se as personagens, por meio de um mecanismo cujo controlo me ia escapando, começassem a dizer-me que o tal retrato do ser humano é feito da junção de todas elas, num todo que não é igual à soma das partes. O passo decisivo neste processo foi a transformação do texto inicial em peça de teatro, com a necessidade de conferir unidade ao conflito e definir um desenlace. Foi então que surgiu o título, que se torna muito mais significativo depois de terminada a leitura. Mas tudo isto aconteceu de um modo algo indizível e transcendente, operado por uma personalidade literária que parece gozar de uma certa autonomia dentro de mim.
Os seus personagens podiam ser qualquer um de nós. Há alguma correspondência com a realidade na construção de personagens ou a sua veracidade provém da completa abstração?
Todas as personagens são inventadas, são criações de um autor que habita em todas elas. A singularidade dos nomes, tantas vezes apontada, acentua precisamente o seu distanciamento da realidade concreta, essa “abstração”, se assim quisermos dizer. A descontextualização da narrativa, reduzindo ao mínimo as referências a tempos e lugares, também contribui para isso. No entanto, ao centrar todo o discurso exclusivamente nas personagens, no que dizem e sentem, pretende-se criar um efeito de proximidade e de identificação e é talvez por isso que elas podem ser qualquer um de nós, que as suas vidas podem contar um bocado das nossas vidas. Observando-as de perto, talvez nos vejamos melhor a nós próprios. Pelo menos, é essa a intenção.
E depois de Nós, Vida? Há mais alguma gaveta por abrir?
Há várias gavetas e não estão propriamente fechadas. A minha escrita não é um segredo, é apenas uma atividade resguardada, uma intimidade que espera os momentos adequados para ser exposta e partilhada. Nós, Vida demorou um tempo que pode parecer excessivo, mas que eu hoje sinto como tendo sido o necessário. Há outras coisas à espera, algumas em apontamento, algumas já redigidas em parte ou no todo. Posso adiantar que há um texto em processo de reescrita da terceira versão. Será o próximo livro? O autor está a fazer o seu trabalho, mas só as circunstâncias, o editor e os leitores poderão dar a resposta final…

Originalmente publicado no Espalha-Factos.

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